Os Medos e Ansiedade na Criança

 

Os Medos e Ansiedade na Criança

Autor(a): Susana Silva, Psicóloga e Neuropsicóloga Clínica

 

À medida que cresce e descobre o mundo à sua volta, a criança vai-se apercebendo como este é grande e por vezes ameaçador.
Os medos e as preocupações são uma componente normal do crescimento, desde que se mantenham dentro de certos limites e não perturbem o global funcionamento e desenvolvimento da criança. Assim, cada etapa evolutiva da criança acarreta um tipo de medo diferente. É normal os bebés aproximadamente a partir dos 6 ou 8 meses de idade reagirem com medo, perante a presença de rostos não familiares ou pela separação dos pais ou daqueles que costumam estar à sua volta. Em idade pré-escolar os temores mais frequentes são representados pelos animais, as criaturas imaginárias, como monstros e fantasmas, a trovoada e ruídos e ao escuro. Assim, como é normal que as crianças, já em idade escolar se preocupem com o que os outros podem pensar dela, medo de fazer figuras ridículas, de serem rejeitadas pelas outras crianças, de não ser suficiente hábil nos jogos, de dececionar os pais com más notas e também se preocupam com a saúde física. Já na adolescência os medos centram-se na autoestima, na valorização pessoal e em temas mais abstratos, como a morte, a religião, questões sociais e também sexuais.
Com frequência, as crianças mais pequenas têm dificuldades em expressar as suas ansiedades em palavras, às vezes expressam-nas por meio de sintomas físicos, como dores de barriga ou cabeça, pesadelos recorrentes, vómitos, etc. Outras vezes regem ao medo com birras, inibindo-se ou evitando a situação receada (como por exemplo ir à escola, dormir sozinha, etc.). Muitas das vezes os pais apercebem-se do que precipitou os medos, como por exemplo quando uma criança fica com medo de cães depois de ser atacada por um, ou quando fica com medo de comer, depois de um incidente.
Estes medos tão frequentes nas crianças são normalmente transitórios e rapidamente ultrapassados com o encorajamento e apoio dos pais.
Os medos ditos “normais” funcionam como tarefas desenvolvimentais, às quais cabe à criança ultrapassar, resultando na promoção da sua autonomia e no seu desenvolvimento emocional. O enfrentar ajustado dos medos evita que, a longo prazo, estes possam possuir uma dimensão patológica resultante em problemas de ansiedade e fobias.
Quando o medo se agrava para uma situação de ansiedade, nestas situações a preocupação ou medo da criança é muito intenso e persistente, interferindo no seu dia-a-dia, e tendo um impacto marcado no processo de desenvolvimento da criança, na adequação aos contextos educativos, no desempenho académico e na vida e saúde mental enquanto adulto. Por vezes ao medo associam-se dores variadas (de cabeça, de barriga), náuseas ou vómitos, palpitações, tremores, tonturas e outros sintomas para os quais não é encontrada nenhuma razão “médica”.
De entre as perturbações de ansiedade mais frequentes nestas idades, destacam-se: a resistência ou recusa escolar, que é geralmente devida a uma dificuldade da criança em separar-se dos pais. Nestes casos as queixas físicas de dores e mal-estar quando se aproxima a hora de ir para a escola/ jardim de Infância são frequentes.
Também frequentes são os medos e fobias que estão ligados a situações ou objetos específicos (por exemplo cães, aranhas, cobras, agulhas, médicos, etc.). O medo é muito intenso e surgem uma série de comportamentos que a criança usa para evitar o objeto causador do medo – condutas de evitamento – que podem ser elas próprias limitativas para a vida da criança (por exemplo não ir à escola, etc.).
Para o desenvolvimento de problemas de ansiedade contribuem fatores constitucionais (genéticos, do temperamento), familiares, como conflitos ou violência familiar que provocam um sentimento de insegurança generalizada na criança, divórcio ou separação dos pais, a morte ou doença de um familiar próximo, relação entre pais e filhos e o estilo educativo dos pais, uma disciplina demasiado rígida e exigente ou, por outro lado uma atitude de superproteção exagerada, determinam insegurança e falta de autoconfiança da criança. Os fatores escolares parecem estar também implicados no desenvolvimento de problemas de ansiedade como, serem vítimas de ameaças ou abusos na escola (bulling), e terem dificuldades de aprendizagem.

 

O que fazer?

Em todos os casos, as estratégias para ajudar o seu filho a lidar com os seus medos implicam enfrentar a situação, não o seu contrário. Evitar ir para a escola, dormir sozinho, ou manter o seu filho em casa só vai aumentar o medo e criar-lhe problemas de ansiedade.
Em momento algum ameace a criança com monstros, fantasmas ou coisas parecidas para que obedeça. Se se quer que a criança obedeça, é preciso ser, antes de mais, coerente; a autoridade, quem lhe pode proporcionar um castigo adequado, é o pai ou a mãe, não o papão ou um monstro. Apelando a estas figuras só lhe vai criar mais medo, agravando o seu problema.
As atitudes dos pais devem ser de ajudar a criança a enfrentar o medo, seja de natureza social ou medo da escola, receios de separação dos pais ou sintomas físicos (dores de barriga ou cabeça); para isso precisam de adotar uma atitude tranquila e positiva, de confiança na capacidade dele para enfrentar a situação. Os pais não devem castigar ou envergonhar a criança por estes medos, este género de abordagem, só irá fazê-lo sentir-se ainda mais ansioso e inferior aos ouros.
Em primeiro lugar, é imprescindível os pais terem a certeza, e transmitirem essa certeza aos seus filhos, de que a situação, não é realmente perigosa. Se existirem sintomas físicos (dores de barriga e cabeça), será aconselhável ir ao pediatra e fazer os exames necessários para despistar se existe alguma causa médica associada às queixas. Na eventualidade, de se confirmar que está tudo bem com a criança, estas expressões físicas devem deixar de receber muita atenção por parte dos adultos, na medida em que inadvertidamente estão a reforçar a sua ocorrência e a aumentar as expressões de medo.
Nos casos dos medos da escola, será aconselhável falar com o professor para se certificar de que ele apoia a criança e que esta não está a ser ameaçada ou magoada pelos colegas. Assim, deve expressar o seu filho o seu otimismo e convicção de que vai ser capaz de lidar com esta situação. Para isso, deve elogiar o comportamento corajoso do seu filho, adaptando elogios quando enfrentam a situação temida, quando arriscam, exprimem algo de novo, fazem um novo amigo ou fazem alguma atividade autonomamente.
Quando os pais estão a ajudar a criança a enfrentar situações de medo e ansiedade, devem estar também atentos às suas próprias reações. Se deixar transparecer receio de eventos sociais, animais, situações específicas ou de deixar ficar o seu filho na escola, ele vai observar esses medos, e as crianças aprendem observando os outros. Por isso, os pais mesmo que se sintam nervosos em situações como estas devem, em frente dos seus filhos, mostrar confiança.
Também nesta altura, os pais devem estar mais atentos à sua relação conjugal. Um elevado nível de conflitos entre marido e mulher ou na família pode aumentar o sentimento de insegurança na criança. Nesta altura, é ainda mais imprescindível reservar as discussões para uma hora em que as crianças não estão presentes.
No caso, de este problema persistir devem procurar ajuda de um profissional especializado – Psicólogo Clínico. A Psicologia Infantil tem como objetivo identificar precocemente e intervir nos problemas de saúde mental nas crianças, nas alterações no desenvolvimento cognitivo, comportamental e emocional, elaborando planos de tratamento cientificamente validados.

 

 

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